O meu processo de emigração começou há mais de seis anos, ainda numa altura em que se emigrava por opção e não por absoluta necessidade. Confesso que a minha decisão foi mais baseada na vontade de iniciar um projeto novo e de me sentir desafiada e realizada profissionalmente, do que propriamente por não arranjar emprego em Portugal. Aliás, eu tinha um emprego estável, na altura no IPO do Porto, e trabalhava numa área que gostava bastante.
Mas desafiada por uma amiga e motivada pelo “bichinho” da curiosidade emigrei para o Reino Unido.
Comecei a trabalhar numa enfermaria de cirurgia no Royal Brompton, um hospital público no centro de Londres especializado em serviços de cárdio-torácica. Quando iniciei funções contavam-se pelos dedos o número de enfermeiros portugueses a trabalhar neste hospital, número este que cresceu a olhos vistos desde então.

          

Devo admitir que para mim não foi fácil a integração no sistema de saúde britânico. Eles regem-se por regras muito específicas que no início fazem alguma confusão para quem, como eu, trabalhou alguns anos em Portugal.
E a verdade é que fazem confusão porque eles, à partida, não autorizam um enfermeiro a dar medicação sem ser primeiro avaliado e fazer os respetivos testes, ou a puncionar sem fazer um minicurso, isto para dar alguns exemplos.
E é aqui que se nota uma grande diferença na formação dos enfermeiros portugueses enquanto profissionais de saúde. A realidade é que nós somos muito bem formados em Portugal e o Royal Brompton reconheceu isso rapidamente. Somos elogiados pela nossa forma de trabalhar, pelo nosso empenho e dedicação, por sermos profissionais inteligentes e que rapidamente nos adaptamos a diferentes circunstâncias.
É isso que explica o facto de o Brompton continuar a recrutar enfermeiros portugueses, voltando regularmente a Portugal para participar em eventos de recrutamento.
Hoje em dia, quem fizer uma visita ao Brompton encontra facilmente mais do que um português em cada serviço, por exemplo, na unidade de cuidados intermédios onde eu trabalho existem 10 enfermeiros portugueses numa equipa de 32. Existem enfermeiros portugueses em várias áreas, quer na prestação direta de cuidados ao doente nos serviços de cirurgia, cardiologia, respiratória e unidades de cuidados intermédios e/ou intensivos (tanto de adultos como de pediatria); como também noutras áreas: serviço de controlo de infeção hospitalar, na área da investigação, etc.

          

Somos carinhosamente tratados como a “máfia portuguesa” (somos mesmo muitos) e somos muito respeitados pelos colegas. Muitos enfermeiros portugueses ocupam lugares “superiores” de carreira. Eu, por exemplo, fui convidada a concorrer para o lugar de banda 7 como “clinical practice educator”, função que desempenhei durante mais de um ano. (Para poderem comparar, numa fase inicial um enfermeiro qualificado começa habitualmente a trabalhar na banda 5 do sistema de saúde britânico). Era eu a responsável pela integração de todos os colegas novos do serviço, assim como pela formação clínica de todos os colegas de equipa. Juntamente com a minha chefe de serviço, decidíamos quais os elementos que receberiam financiamento para os diferentes cursos, desde pós-graduações a mestrados e doutoramentos. A maior parte da formação é financiada pelo Hospital e existem muitas oportunidades de desenvolvimento das nossas competências.
Em diferentes áreas os enfermeiros portugueses iniciaram e/ou fizeram parte de diferentes projetos que foram reconhecidos pelo Hospital e que, de alguma forma, contribuíram para a melhoria e desenvolvimento dos cuidados prestados aos doentes e família.
Ao longo destes anos, muitos colegas já saíram do Brompton e muitos mais vão entrando. Aqui encontram vários enfermeiros portugueses e outros profissionais de saúde de nacionalidade portuguesa, e uma comunidade hospitalar que nos respeita e onde vemos reconhecido o nosso trabalho.
No Reino Unido, encontram uma carreira onde todos os anos se “sobe um degrau” dentro da respetiva banda, o que corresponde também a um aumento salarial anual. O acesso à formação e oportunidades de promoção (subida de banda) não faltam, e não tenho dúvidas que estes são grandes atrativos para uma classe que vê a sua carreira estagnada em Portugal.                                                                                      

Catarina Soares

 

O Royal Brompton está novamente à procura de Enfermeiros com experiência para trabalhar no coração de Londres! Se está interessado aproveite esta oportunidade. 

     

Booking.com