Sandra Costa
1ºSargento Enfermeira
Militar há 15 anos e militar enfermeira há 5 anos.

Oriunda de uma família com dificuldades financeiras cedo deixei de estudar e comecei a trabalhar. Trabalhei como empregada de mesa e balcão dos 14 aos 19 anos. Aos 19 anos ingressei na vida militar com o 6ºano de escolaridade e uma forte determinação em alcançar uma realização pessoal e profissional com a qual me identificasse. Não entrei para a tropa por ser um sonho de infância ou por ser aquilo que ambicionasse fazer. Entrei por representar a hipótese mais viável que me permitisse dar seguimento aos estudos com independência financeira. Contudo rapidamente me apaixonei pela realidade militar. Levou-me a testar os meus limites, a nível físico e psicológico, e a perceber o quanto me identifico com os princípios basilares da formação militar. Finalmente o facto de ser mulher, e de me considerar uma defensora dos direitos das mulheres, justificou um esforço acrescido para superar vários desafios impostos ao longo da minha carreira militar.
Após a formação base, que compreende a recruta e especialidade, fui socorrista durante 5 anos no Hospital Militar Regional N.º1 – Porto. Um socorrista desempenha funções equiparadas a um assistente operacional. Desempenhei funções de socorrista no serviço de radiologia, dermatologia, estomatologia, medicina interna e neurologia. Durante este período, apercebi-me do quanto me sentia bem em ajudar as pessoas que estavam a passar por uma doença, e que na maioria das vezes implicava um estado de dependência na realização das suas atividades de vida diárias. E assim se tornou evidente que o meu futuro teria de passar por algo que me permitisse ajudar o próximo. Quando dei por mim, havia concluído o 12º ano, no ensino recorrente noturno, e estava a concorrer ao Curso de Licenciatura em Enfermagem.

No ano de 2006 entrei no 35º Curso de Formação de Sargentos (CFS) na área DE - Enfermagem. O Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE) decorreu na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa (ESEL) ao abrigo de um protocolo estabelecido entre as Forças Armadas e esta instituição pública de ensino superior. Na verdade a quase totalidade do CLE decorreu na Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa, que viria a integrar a ESEL juntamente com as três escolas superiores de enfermagem públicas de Lisboa.

             

Considero que a formação base em enfermagem continua a ser o ponto mais forte na construção da minha personalidade enquanto enfermeira, o que se deve a diversos fatores como o corpo de docentes do meu curso. Estes docentes pautavam pela defesa de cuidados de enfermagem holísticos, pela sensibilização para uma prática de enfermagem responsável baseada na ética, deontologia e enquadramento legal aplicável. Foram mestres que através dos seus métodos me forneceram ferramentas essenciais para uma prática de enfermagem humana, centrada na unicidade da pessoa alvo da minha intervenção. A todos esses mestres serei eternamente grata.

A par do Curso de licenciatura na escola pública tive formação técnica militar na Escola de Serviço de Saúde Militar (ESSM). O militar enfermeiro é resultado de uma formação técnico/científica e militar, componentes estas que são indispensáveis ao seu desempenho de funções. Como o CLE por si só não prepara um militar enfermeiro para o seu desempenho de funções, depois deste curso tirei uma Formação Complementar em Saúde (Emergência e Catástrofe) para militares enfermeiros na ESSM, que é essencialmente ministrada por militares enfermeiros com uma experiência profissional semelhante ao que esperava para o meu futuro profissional. Esta é, sem dúvida, uma formação indispensável a qualquer militar enfermeiro no início de carreira.
Terminado o processo de formação base, fui colocada no Regimento de Engenharia Nº3 em Espinho na qualidade de Sargento Enfermeira do regimento. De repente, sozinha e sem experiência, passei a ser responsável pelos cuidados de enfermagem a uma comunidade de aproximadamente 400 militares. Foi um início complicado e que me levou a recorrer a militares enfermeiros mais antigos que já tivessem passado pela mesma situação.
As intervenções de enfermagem neste contexto inserem-se na vertente ocupacional da saúde militar, muito próxima da área dos cuidados de saúde primários, tendo como alvo a pessoa adulta a vivenciar um processo de saúde/doença em contexto militar, e visando a promoção de saúde e prevenção da doença.

Em 2011 abracei um novo desafio que passou por integrar uma Força Nacional Destacada (FND) numa missão de apoio à paz da Organização do Tratado Atlântico Norte (OTAN), em contexto multinacional no teatro de operações do Kosovo. Foi uma experiência rica em momentos de intervenção de enfermagem só por si daria um artigo. A intervenção do militar enfermeiro neste contexto decorre essencialmente na vertente operacional da saúde militar, ou seja, intervenções de enfermagem à pessoa em situação crítica em contexto militar.
Foram 6 meses intensos, longe da família e do meu quotidiano, mais uma prova de superação. Foi durante esta experiência, devido a diversas situações críticas que justificaram a minha intervenção, que identifiquei a necessidade de continuar o meu percurso académico no sentido de adquirir novas competências na prestação de cuidados de enfermagem a pessoa em situação crítica. Senti que devia melhorar a minha prática. A minha noção de responsabilidade profissional diz-me que devo fazer tudo o que estiver ao meu alcance para garantir cuidados de enfermagem de qualidade. Um militar continua a ser uma pessoa e por isso tem o direito a cuidados de saúde de qualidade e seguros. Desse direito resulta o meu dever de garantir esses cuidados de enfermagem.

  

Atualmente sou enfermeira especialista em enfermagem médico-cirúrgica com mestrado na mesma área, e trabalho na vertente hospitalar da saúde militar no serviço de urgência do Hospital das Forças Armadas – polo do Porto.
A minha experiência na qualidade de militar enfermeira é residual porém, já passei pelas três vertentes da saúde militar, permitindo-me evidenciar a necessidade de investimento nesta área. Todas as vertentes da saúde militar justificam a intervenção do militar enfermeiro e por isso é crucial a construção de documentos orientadores, devidamente fundamentados, dessa intervenção.
O contexto militar tem particularidades e consequentemente também a enfermagem em contexto militar tem de ter particularidades. Se essas particularidades são suficientes para a criação de uma especialidade ou competências acrescidas é algo que deverá ser trabalhado com responsabilidade pela Ordem dos Enfermeiros e militares enfermeiros.

Atualmente contínuo a sentir-me bem com a minha escolha profissional e motivada em contribuir para o desenvolvimento da enfermagem em contexto militar. Quanto mais ténues forem as fronteiras entre os diferentes contextos da prática da enfermagem, mais perto da excelência profissional estaremos.

Sandra Costa