Acredito num mundo em que as fronteiras têm importância simplesmente para a organização de pessoas, mas sempre vemos as fronteiras a confinar a mentalidade de muitos. Acredito que a saúde é para todos, mas há diversos lugares neste planeta em que quem manda não pensa o mesmo. Estudei numa escola que protege a promoção de saúde e acredito em levar a todos níveis de cuidados essenciais. Acredito que não fazer é compactuar com quem faz mal, que as pessoas acreditam de menos, especialmente em si mesmas. E acredito que todos temos responsabilidade, uns sobre os outros e sobre o bem comum. A partir daqui posso ser enfermeira em todo o lado.
Durante a licenciatura fui bombeira voluntária nos grandes BVAMM - Bombeiros Voluntários de Algueirão Mem Martins em Sintra, e até hoje continuo sem compreender bem como conjuguei os meus dias. Noites de fogos e acidentes rodoviários (ou dos gatinhos nas árvores) e dias de estudo ou ensino clínico, associação de estudantes, etc. Indubitavelmente dei sérias dores de cabeça à minha família. Ser bombeira deu-me uma fundamental destreza para o que veio mais tarde, e a “pica” pela prestação de cuidados outdoor!
No último ano da universidade fui para a Suécia, queria um país nórdico para os meus 4 meses de programa Erasmus, onde trabalhei com enfermeiros e paramédicos num sistema algo futurístico. Neste País impressionou-me: fazer parte de um sistema de saúde que protege os cuidados continuados, capacitando grandes equipas de enfermeiros país fora; os poucos casos que assisti junto aos paramédicos tal é o nível de prevenção e também a promoção de saúde oferecidas desde o infantário (e até mais cedo); o quão bem o pré-hospitalar está equipado e treinado e a breve experiência intra-hospitalar na maternidade. Todos os casais "grávidos" escrevem à equipa sobre o seu parto ideal, podem fazer parto na água, a acupunctura é usada para controlo da dor e as salas de parto são como quartos das nossas casas.
Foi assim que quase emigrei para a Suécia depois de conseguir o meu desejado diploma de licenciatura. O trabalho na equipa SiGripe na Saúde 24 em Portugal, foi o primeiríssimo e deu-me aquele empurrão…soube logo que só queria viver lá fora! Como não tinha tempo para aperfeiçoar o meu sueco e, apesar de não morrer de amores pela cultura inglesa e muito menos pelo clima, convencida pelas agências de recrutamento fui parar ao Reino Unido.
Cheguei ao UK absolutamente sozinha e sem conhecer ninguém para assinar contrato 3 dias mais tarde, e acreditar que ficaria uns 2 anos quando fiquei os últimos 5. Trabalhei 2 anos na Acute Medical Unit do gigante hospital distrital de Norwich, o NNUH - Norfolk and Norwich University Hospital. Passado este tempo mudei-me para Londres onde trabalhei, apenas, 8 meses como Agency Nurse (freelancer numa data de unidades e hospitais). Posteriormente fixei-me novamente desta vez em duas urgências bastante distintas: Royal Free London Hospital e UCLH - University College London Hospitals.

      

Londres, o mundo dentro do mundo onde quase tudo acontece…é de apaixonar qualquer um!
Com o tempo resolvi deixar o trabalho como "permanente", passei a acreditar que se pode viver melhor fazendo o próprio horário e que se aprende consoante o esforço/disciplina próprios, não consoante os cursos que nos injetam. Primariamente quis essa flexibilidade para poder continuar a estudar, já não podia esperar mais por prestar cuidados a pessoas com baixo ou inexistente acesso à saúde nos países em desenvolvimento. Foi assim que fiz o incrívelmente e inspirador Diploma in Tropical Nursing (enfermagem tropical), através da London School of Hygiene and Tropical Medicine, criado pela exemplar enfermeira de ajuda humanitária Clare Bertschinger.
Logo em seguida surgiu uma oportunidade para trabalhar como voluntária na Organização Não-Governamental britânica FHN - Foundation Human Nature, que agarrei sem hesitar porque não cobram dinheiro aos voluntários, o que é uma raridade hoje em dia. Esta instituição tem 2 clínicas/centros de saúde em zonas rurais, uma no Gana e outra no Equador (este úlitmo concluído, funciona sem a asa do FHN). Lá fui eu para o oeste africano cheia de ilusões voltando repleta de realidade. Curiosamente regressei a Londres com mais ambição de mudar tudo o que posso e de influenciar outros no mesmo sentido, porque vale sempre a pena, porque só se muda a vida de alguns, mas muda-se.
Eu, a médica Meghan e a minha grande amiga e colega de curso Nádia aprendemos, demos exemplo, tratamos da organização, trabalhámos lado a lado com os enfermeiros da clínica, demos formação, pusemos o nosso coração nos cuidados ao domicílio e nas sessões de promoção para a saúde na escola e fizemos urgências de táxi quando não havia ambulância. Rimos e chorámos como qualquer pessoa (ou enfermeiro), sentimos muita frustração mas também os sinais de luz.

             

A inspiração perseguiu-nos mesmo perante o choque de regressar à sociedade como a conhecemos, e ao Inverno londrino, naquele Dezembro. Eu e a Nádia decidimos então continuar a fazer projetos de angariação de fundos para a FHN, desde festivais de música até à épica aventura Ride for Ashanti em que fizemos Londres-Lisboa de bicicleta, à qual até a sic aderiu (para saber mais pode ler a entrevista realizada pelo Green Savers). O valor que conseguimos angariar (£7000) deu para comprar novas baterias para os painéis solares já existentes e ainda novos painéis, para a clínica do Gana. Com este pequeno esforço conseguimos fazer com que o staff desses centros de saúde nunca mais necessitasse de trabalhar com lanternas durante a noite por falta de eletricidade. Depois desta aventura regressámos a Inglaterra e fomos convidadas a integrar a equipa da FHN, voluntárias, tal como todos os seus elementos.
Entretanto, nostalgicamente deixei o speed das urgências em Londres e abandonei esta cidade, com todas as experiências brutais que me ofereceu dentro e fora do hospital, para “mergulhar” numa viagem infindável pela América do Sul.
Ainda não tive tempo nem espaço para ser enfermeira, mas sinto que o cosmos se alinhará nesse sentido. Para já ando a fazer outras coisas que nunca fiz. Como a minha Avó Adélia sempre dizia, querer é poder. A seu tempo terei mais futuro de ajuda humanitária além e sem fronteiras, que lugares para explorar, pessoas sem real acesso a saúde e novas aprendizagens não faltam!

Vossa
Ana Maria Valinho

 

P.S.: No meu tempo não havia uma plataforma como o Saúde Além Fronteiras, logo deixo o meu elogio à equipa e em especial à minha adorável colega de curso Stephanie. Relembro contudo, há que explorar e decidir por si mesmo, nem sempre as opiniões que escutamos são referência. Como aprendi há tantos anos no Movimento Encontro Jovens Shalom (MEJSh), o caminho faz-se caminhando!

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