A facilidade com que esta nova geração de portugueses sai do seu país natal para procurar uma vida melhor é cada vez mais evidente comparativamente a algumas décadas atrás.
Para compreendermos o que leva ao elevado fluxo migratório registado nos últimos anos dos profissionais de saúde, conduzimos uma entrevista a duas alunas da Escola Superior de Enfermagem de Santa Maria. Mariana Martins e Inês Silva, na altura (Maio 2015) a terminar o último ano do curso de enfermagem, falam sobre o seu percurso que para elas será, sem qualquer dúvida, o da emigração.

Já pensaram ir trabalhar para o estrangeiro?
“Nem ponderamos procurar trabalho em Portugal, vamos logo tentar no Reino Unido”. Tanto a mariana como a Inês querem ir viver para o estrangeiro, mas estão certas que “por uma questão de segurança e investimento só vamos para fora quando tivermos um emprego garantido”.

Quais os motivos que as levam a querer ir para outro país?
“No Reino Unido conseguimos salários mais elevados e facilidade em progredir na carreira de enfermagem. Nesse país temos também, apoios financeiros para a realização de formações extra licenciatura, que em Portugal são pagos”.

Porquê esta preferência pelo Reino Unido?
“ No reino Unido os profissionais de saúde têm muitas oportunidades e boas condições de trabalho. Já conhecemos alguns enfermeiros que foram para lá e estão a gostar muito da experiência e isso também nos ajuda a decidir”.
Depois dos motivos profissionais as estudantes enumeram ainda as razões pessoais que as influenciam nesta escolha: “o RU fica perto de Portugal, pertence à união europeia e como tal não precisamos de passaporte, e oferece viagens com valores muito acessíveis através das companhias low-cost, condições estas que nos dão facilidade para visitar o nosso país natal”.
Se tivessem que optar por outro destino a Mariana selecionaria a Suíça, porque tem familiares e um pediatra conhecido a trabalhar nesse país. Para a Inês a Holanda é a segunda opção, onde conhece alguns enfermeiros e tem informação que estão a recrutar muitas pessoas da sua área.

E onde gostariam de viver?
Liverpool, Londres e Newcastle são as preferências de Mariana. A Inês fala mais no centro e arredores de Londres.
“O mais importante é a cidade ter uma boa rede de transportes públicos, assim como bons locais de lazer e cultura. Claro que termos alguns conhecidos nesse local também influência” mencionam como principais fatores aliciantes.

Como lidam com o facto de terem de se adaptar a um idioma diferente?
“Para nós não será um impedimento. Sabemos o básico da língua inglesa para conseguir comunicar inicialmente, depois, com o treino, aperfeiçoamos o nosso vocabulário. Estamos a pensar fazer um curso de inglês técnico específico para profissionais de saúde, o que também nos iria ajudar a ultrapassar esta dificuldade”.

Sabem como vão procurar trabalho para o RU?
“Através de sites de procura de emprego na internet, agências de recrutamento e pessoas da nossa área que já estão a trabalhar nesse país”. Uma pesquisa que tiveram de fazer por elas próprias, mas sugerem que “as faculdades deveriam ter informação no final do ano letivo, talvez uma ligação com uma agência de recrutamento que ajudasse os finalistas nesta fase inicial de entrada no mercado de trabalho”.

Quais as principais dificuldades que apontam na emigração?
Inês responde prontamente “ir sozinha” e Mariana subscreve. “Chegar sozinha a um local desconhecido é das coisas mais difíceis neste processo de mudança” e gostavam por isso de “ter alguém conhecido no país de origem para nos ajudar, principalmente, na fase inicial de adaptação”.
Estar longe da família e dos amigos é outro argumento apontado pelas estudantes como uma desvantagem da emigração. Para a Inês é também complicado deixar para trás o namorado.
O último ponto negativo que citaram foi a adaptação ao clima britânico, que é bastante mais frio que o português.
Contudo, apesar destes obstáculos iniciais, sentem que “se estivermos bem profissionalmente vamos ficar contentes e estas desvantagens passam para segundo plano, até porque conhecer um país novo, descobrir uma cultura nova e construir novas amizades, são realidades que nos motivam a emigrar”. A sorrir comentam ainda “os portugueses adaptam-se a tudo, nós queremos é trabalhar, nós queremos é aprender e por isso a emigração não nos assusta”.

Na vossa opinião quais as razões que levam cada vez mais portugueses a emigrar?
“Em Portugal somos mal pagos, trabalhamos muitas horas, temos impostos elevados, não dão o devido valor aos profissionais e com estas condições a satisfação e motivação para continuar neste país começa a diminuir. A crise também não ajuda. Fazem promessas que o desemprego vai diminuir, que a economia do país vai melhorar, mas não fazem nada para mudar. É incrível que até o primeiro ministro de Portugal incentiva as pessoas a emigrar “ palavras expressas pelas entrevistadas sem qualquer hesitação.

No projeto Saúde Além Fronteiras partilhamos experiências vividas por emigrantes portugueses, porque acreditamos que facilitam a integração de todos os que procuram uma oportunidade fora do seu País de origem. Acham que pode ser relevante?
“Sem dúvida”. Mariana e Inês, apesar de já terem como certo que vão emigrar, reconhecem que “a partilha de experiências dos emigrantes que já passaram por esta fase de mudança e adaptação pode auxiliar a decisão dos que querem partir nesta aventura”. Dizem, inclusive, que antes de tomar esta decisão leram muita coisa sobre pessoas que já emigraram. “Conhecer outras pessoas que já estiveram na situação em que nós estamos e ultrapassaram as dificuldades que surgiram, mostra-nos que se eles conseguiram, nós também vamos conseguir”.

Para finalizar, gostaríamos de perceber de que maneira a informação disponibilizada pelo Saúde Além Fronteiras pode auxiliar esta fase de transição?
“Era importante termos acompanhamento para nos estabilizarmos no país de destino. A construção do Cv, a escrita de uma carta de apresentação, a procura de emprego, alguns esclarecimentos sobre o processo da emigração e informação sobre o país de destino, foram as maiores dificuldades que sentimos nesta fase de decisões." tópicos enunciados pelas alunas que são disponibilizados neste projeto.

A Mariana e a Inês estão, atualmente, a trabalhar num Hospital no Reino Unido, juntando-se aos milhares de portugueses que se viram “forçados” a emigrar para evitar o desemprego, que seria o destino mais certo se permanecessem em Portugal.

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