Licenciada em 2009 e com o sonho de trabalhar numa unidade de cuidados intensivos saí para o mundo do trabalho, com apenas uma opção em vista como centenas de enfermeiros recém-licenciados, o desemprego.
Quando terminei a faculdade em Lisboa voltei para o meu local de origem por opção, a ilha da Madeira. Fiz voluntariado num lar privado durante três meses e no ano seguinte entreguei dezenas de currículos em diversas clínicas privadas sem nunca ter uma resposta, positiva ou negativa. Decidi fazer um curso intensivo de três meses em suporte básico e avançado de vida de modo a continuar atualizada e de ter alguma bagagem para o futuro emprego. Entretanto surgiu em 2011 a oportunidade de ser entrevistada pelo hospital central, ficando na reserva desse mesmo concurso. Passados seis meses fui chamada para exercer funções a recibos verdes no serviço de neurocirurgia, sempre na esperança de ficar efetiva nesse mesmo hospital. Passado quase um ano e meio e com a perspetiva de que seria dispensada no final do contrato e com um futuro incerto, iniciei o processo de inscrição no NMC – Nursing and Midwifery Council (a ordem dos enfermeiros britânica). Entre conversas com amigos e muitas leituras de blogues na internet para perceber o que seria necessário para o tal processo, consegui inscrever-me. Uma ajuda aqui de um amigo para traduzir os papéis, outra do outro lado para certificar os documentos, tentei fazer tudo de maneira a não ficar muito caro porque ainda não existiam “packs de tradução e certificação”. Nessa altura era tudo muito novo e vago pois era o início do fluxo de enfermeiros para fora do país.
Assim como outros enfermeiros, entrei em contacto com uma agência inglesa, que nos agenciou uma entrevista em Londres no Kings College Hospital, um dos maiores centros neurocirúrgicos do UK (sendo as despesas por conta própria). Não fomos bem sucedidos e regressamos com um sentimento de frustração porque percebemos que afinal não era assim tão simples. E assim, em Julho de 2012, estava de novo desempregada.
Em Janeiro 2013, surgiu uma nova oportunidade de sermos entrevistados no UK ( despesas por conta própria outra vez). Chegados ao aeroporto de Gatwick, com o percurso já estudado pelo Google e o Google Maps, entre metros e comboio e com o Oystercard que tínhamos da última vez que estivemos no UK, chegamos à “terra prometida”.
Sucesso! Desta vez conseguimos trabalho.
Regressamos a casa com um misto de alegria e medo. Alegria porque tínhamos trabalho, medo porque iríamos deixar tudo para trás, tudo o que conhecíamos, o conforto, a família, os amigos, o nosso “security blanket”. Três meses mais tarde emigramos oficialmente da terra que nos viu crescer, para a terra em que nos encontramos, nos apaixonamos e que nos fez casar.
Passados dois anos, desde essa entrevista, depois de altos e baixos, lágrimas, sorrisos, novos amigos e muitas saudades, encontramos um novo local de trabalho na ilha do canal, Jersey. Integramos novamente a vida hospitalar: o meu marido no serviço de urgência e eu na posição de “rotational”, que me permitiu adquirir diferentes competências e ter a experiência de providenciar cuidados nos diferentes serviços hospitalares. Mas o sonho de integrar a unidade de cuidados intensivos não ficara apagado… Tive a sorte e o prazer de conhecer o enfermeiro Nuno Pinto que me ajudou e apoiou a integrar a unidade de cuidados intensivos. E desta maneira, seis anos depois de me ter licenciado, tive a oportunidade que não tive em Portugal, a oportunidade de realizar um sonho.
Hoje sei e vejo que a enfermagem não se limita apenas à vertente hospitalar ou à vertente comunitária. Existem diversos percursos e papéis na enfermagem que podem ser infinitamente explorados, e é graças a esta experiência “cá fora” que tenho essa noção. Desde enfermeiros prescritores a enfermeiros que contribuem para a formação e desenvolvimento de outros enfermeiros, enfermeiros de cruzeiros, enfermeiros especialistas em controlo de infeção, enfermeiros especialistas em oncologia pediátrica, etc. Os caminhos são vários, a rotatividade é imensa e as oportunidades também.

Por cá, por cada porta que se fecha há sempre outra que já está aberta!
Stephanie Silva

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