Ser enfermeiro começa por ser uma opção muitas vezes irrefletida, noutras situações pode ser considerada uma vocação ou, simplesmente, o resultado de várias contingências a ponderar no momento de decidir um futuro e uma carreira. A verdade é que a prática clínica da enfermagem acaba por consolidar ou desmoronar expectativas consoante a experiência de cada um no trajeto percorrido.
No meu caso específico, depois de quase vinte anos como enfermeiro dedicado à urgência com experiência em pré-hospitalar em Portugal, seguida de dois anos de cuidados intensivos no Reino Unido, a vida de enfermeiro-marinheiro acabou por ser o meu caminho nos últimos dezoito meses de percurso profissional.
A possibilidade de viajar e conhecer mundo é algo que atrai a maioria das pessoas e para falar verdade, no momento em que decidi apostar neste emprego a motivação veio de alguma insatisfação com a minha recente experiência no sistema de saúde privado do Reino Unido, mais do que o desejo de vir a ser um viajante.

              

Um anúncio de recrutamento que exibia uma fotografia de dois navios de cruzeiro num porto tropical de água azul-esmeralda foi a ignição para quebrar com a monotonia e depois de clicar em meia dúzia de páginas da internet, estava a enviar o meu CV para apreciação pela empresa de recrutamento.
As competências mais apreciadas foram, desde logo, a longa experiência em urgência e doente crítico e o potencial para trabalhar como “first responder” em situações de urgência e emergência médica.
As formais entrevistas de avaliação do nível de inglês, assim como do conhecimentos na área de suporte avançado de vida e doente crítico, rapidamente deram lugar às burocracias e formalização do contrato de trabalho, e em poucas semana estava apto a embarcar em qualquer navio da frota.
A primeira semana a bordo de um navio de grande porte como enfermeiro, foi um ensaio de adaptação à vida de mar. O primeiro contato com a náusea associada ao movimento das ondas; a claustrofobia de viver confinado a um espaço limitado; a confusão inicial até construir algum sentido de orientação numa estrutura fechada sem os habituais pontos de referência geográfica, confrontando esta dificuldade com a necessidade de localizar um qualquer local onde uma resposta médica imediata fosse a, qualquer momento, necessária; as contingências de viver limitado a um quase inexistente ou muito limitado acesso às comuns tecnologias de comunicação (no mar todos estão dependentes de uma limitada e finita largura de banda de satélite e área de cobertura do mesmo); entre muitas outras coisas que funcionam de forma diferente a qualquer hospital ou clínica em terra firme que não vale a pena aqui detalhar.

 

                    

Trata-se de uma mudança de estilo de vida e uma grande adaptação a uma forma de fazer enfermagem diferente do convencional. Contudo, a empresa teve a sensibilidade de fazer esse esforço de proporcionar uma adaptação, porque nem todos se sentem à vontade num grande navio no mar, depois de uns dias alguns decidem que não é esse o seu caminho.
Passada essa provação inicial chegou o momento de embarcar nessa nova aventura, ser enfermeiro a tempo inteiro em terras distantes e exóticas. Austrália e Pacífico Sul, quatro meses de mar e portos de chamada na outra face do globo. Um navio de médio porte, uma equipa médica de quatro enfermeiros e dois médicos para uma tripulação de 1000 almas e uma média de 2500 passageiros. Para quem está familiarizado com o sistema de saúde inglês, aqui não é muito diferente: um período de adaptação/provação e um longo conjunto de competências para cumprir até obter a performance autónoma. Não há dias de folga, todos, repito, todos os dias são dias de trabalho, num contrato de 120 dias em média. Depois desses quatro meses, são concedidos dois meses de férias em casa, não remunerados. Todas as despesas de viagens, alimentação e acomodação estão asseguradas dentro do acordo de trabalho, assim como assistência médica e plano de reforma.

              

A vida de enfermeiro a bordo mistura-se com a vida de passageiro uma vez que são concedidos privilégios de “oficial de duas stripes”, o que concede acesso a “decks” de passageiros, teatros, cinema, espectáculos ao vivo, restaurantes, bares, ginásios, piscinas e outras utilidades ao serviço dos passageiros. Claro, sempre articulando esse acesso com as contingências do dever profissional e períodos de descanso. Turnos de doze horas em que estamos à chamada numa escala de rotação fixa tipo: “dia - noite - folga - folga” (para uma equipa de quatro enfermeiros).
Em navios de maior porte a equipa conta ainda com paramédicos que asseguram as funções de “first responder” relegando a enfermagem para os casos de doentes com necessidade de internamento ou observação por períodos mais extensos. Existe uma necessidade de harmonizar o trabalho em equipa, dada a reduzida dimensão e inter-disciplinaridade da equipa médica em geral.
Os navios dispõem de postos médicos com áreas de observação de doentes agudos, do género de um serviço de urgência, bem como camas de internamento com equipamento necessário ao cuidado de doentes com nível de cuidados de 1 a 3. Os exames complementares de radiologia (RX convencional) e análises clínicas são assegurados por qualquer um dos elementos da equipa, como parte integrante das suas competências. O equipamento de apoio à prática clínica é similar ou equivalente ao encontrado em qualquer hospital em terra firme, sendo que a familiarização com o equipamento disponível e a sua manutenção e utilização fazem parte dos módulos de integração da primeira semana de iniciação que descrevi anteriormente.
O “first responder”, seja na figura do paramédico ou do enfermeiro, está em serviço à chamada além das suas funções e responsabilidades na clínica/hospital. Compete-lhe, também, dar uma resposta adequada a todas as chamadas de ajuda ou socorro para situações médicas, trabalhando em parceria com o médico destacado para esse turno (dia ou noite), mas contando sempre, e a todo o instante, com a pronta colaboração de toda a equipa a bordo do navio para qualquer situação de emergência mais complexa.

 

                                         

Os serviços de emergência médica articulam-se com os demais serviços de emergência do navio, respondendo a uma hierarquia que é gerida em, última instância, pela equipa de comando na ponte e está sob ordem direta do capitão do navio. Também os serviços de gestão e coordenação da empresa em terra firme, têm um papel preponderante na gestão de situações críticas como catástrofe, evacuação por meios aéreos ou outras de complexidade ou natureza extraordinária. Tudo se articula em tempo real com recurso às comunicações próprias dentro do navio e deste com o exterior via satélite.
As situações clínicas que podem ocorrer neste contexto são similares às encontradas em qualquer hospital em terra firme, com a agravante dos riscos e particularidades específicas de um navio de cruzeiro de grande porte.
Trabalhar numa equipa médica tão reduzida em termos numéricos pode ser um desafio no sentido de harmonizar as relações humanas, técnicas e profissionais, com as inerentes necessidades ou dificuldades de natureza individual. Devo acrescentar que os primeiros meses a bordo de um navio nestas condições podem ser uma provação não semelhante a qualquer oura vivência prévia, com uma conotação predominantemente negativa. Além do descrito serviço de “first response”, o hospital/clínica funciona de portas abertas para tripulantes e passageiros duas vezes ao dia e nesses períodos todos os elementos da equipa são chamados a participar.

                      

Os dias da semana têm uma função meramente organizacional no calendário, sendo que não há qualquer distinção entre dias da semana, feriados ou fins de semana, sejam eles quais forem. A verdadeira diferença entre os dias do calendário é serem dias de alto mar ou dias de porto. Nos dias de porto, com o navio atracado, e sempre cumprindo os períodos de portas abertas da clínica de manhã e à tarde, os elementos da equipa não escalados como “first responders” podem abandonar o navio e desfrutar dos portos de chamada, sempre respeitando as horas de regresso impostas ou as responsabilidades profissionais a satisfazer. Muito importante é , ainda, o zelo pela própria integridade física e segurança, nunca esquecendo que o porto de chamada pode ser qualquer ponto no globo terrestre dependendo do itinerário do navio. É aqui que este emprego se pode tornar aliciante para muitas pessoas, a possibilidade de viajar e descobrir o planeta à escala global. Contudo, garanto que estas horas de lazer são largamente merecidas e, muitas vezes, quatro horas fora do navio, numa qualquer praia paradisíaca, podem representar vários dias de clausura em alto mar ou portos de chamada como “first responder” ou a combinação de ambos. No entanto, esta é uma dualidade cujo balanço só pode ser avaliado pela experiência individual de cada um. Há quem ame, há quem deteste e nunca mais regresse, há quem fique a meio e adote soluções de compromisso. Acima de tudo é um emprego e não umas férias remuneradas, convém nunca esquecer isto.

 

                               

As relações no navio não se limitam, obviamente, ao convívio com a equipa médica. Existe um universo de outras pessoas de outros departamentos, de todos os recantos do mundo, com as mais variadas experiências e potencialidades, prontas a receber e enriquecer a experiência de trabalhar num navio de cruzeiro. Existe animação organizada para os tripulantes com bares, discoteca, atividades de lazer, excursões em portos de chamada e todo um conjunto de outras iniciativas e amenidades que visam proporcionar uma vida estimulante e divertida bem como o combate ao stress. Estas componentes, social e recreativa, são partes fundamentais da vida no mar. Desenganem-se se neste ponto os que acham que é pura diversão. Trabalhar 7 a 14 horas por dia, todos os dias e o afastamento da família, amigos e demais componentes da zona de conforto de cada um podem ser muito penosas, difíceis ou impossíveis de compensar. O termo do contrato ao fim dos quatro meses é sempre um momento muito ansiado e apreciado. Convém acrescentar que trabalhar para uma empresa a operar a nível global representa um conjunto de condições intrínsecas a tal nível operacional. É difícil desagregar o sentimento de ser apenas um número mecanográfico numa multidão de funcionários, ainda que haja dias em que isso é possível. A qualquer momento podem destacar um qualquer funcionário para um outro navio, mesmo que isso signifique atravessar metade do globo terrestre, para suprir necessidades imediatas e imprevistas. E acreditem que, passar 24h ou mais metido em aviões e aeroportos, lidar com check-ins, emigração, interrogatórios no aeroporto… não tem nada de entusiasmante ou divertido. Como se diz em Portugal, são ossos do ofício!
Acima de tudo, trabalhar como enfermeiro num navio de cruzeiro é um estilo de vida que coloca desafios a níveis absolutamente inimagináveis para quem não nunca vivenciou esta experiência. Pode ser extremamente aliciante e viciante em diversas dimensões, pode ser simultaneamente frustrante e desmotivante noutras. O mercado existe e a procura flutua mas, o requisito mais importante é ter a vontade e a coragem de cortar o cordão umbilical com a zona de conforto, com a enfermagem mais convencional ou com a aspiração de ter um plano de vida familiar convencional.

                

A experiência adquirida é sempre uma mais-valia no momento do recrutamento mas especialmente na prática clínica diária, dadas as peculiaridades das equipas médicas.
Para finalizar, permitam-me dizer que não é difícil tomar decisões, mas nem sempre é pacífico viver com elas. De qualquer forma, se tiverem curiosidade e a oportunidade de experimentar este estilo de vida assegurem-se de ter um plano B, como seria aconselhável em qualquer outra situação. Deixo-vos, também, algumas imagens dos locais por onde podemos passar nesta vida de enfermeiro.

Até breve
João Teixeira
 

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