No passado mês de Junho comecei a trabalhar como Enfermeiro na "East of England Hyperbáric Unit". Não é um trabalho a tempo inteiro, uma vez que neste momento trabalho na Unidade de Cuidados Intensivos do James Paget University Hospitals. É um trabalho em part-time em que por vezes faço turnos marcados e outras vezes estou à chamada se houver alguma emergência.
É um novo desafio, um "mundo a explorar" já que ainda há muito para descobrir acerca da oxigenoterapia hiperbárica.
No Reino Unido há cerca de 25 unidades, sendo que apenas 9 são de Nivel 1 ("capazes de receber utentes com qualquer diagnóstico que possam requerer manobras de suporte avançado de vida, quer imediatamente ou durante o tratamento"), tenho a sorte de trabalhar numa dessas!
Deixo-vos em baixo algumas noções daquilo que é a oxigenoterapia hiperbárica.

Oxigenoterapia hiperbárica

O oxigénio (O2) constitui 21% do ar que respiramos. Por norma, usam-se máscaras ou cateteres nasais, em tratamentos médicos, sempre que alguém necessita de mais O2.
Em algumas situações, é necessário mais O2 do que aquele que é possível administrar pelas máscaras "normais". Para isso terá que ser administrado a uma pressão maior do que a pressão atmosférica. É aqui que entra o Oxigénio Hiperbárico. Para criar essa pressão o utente é colocado dentro da CH – Câmara Hiperbárica.
Com oxigenoterapia dentro da CH, sob pressão, é possível dissolver até dez vezes mais O2 no plasma sanguíneo do que ao respirar ar à pressão atmosférica ou três vezes mais do que com uma máscara de O2 convencional. Este "extra" de O2 é por sua vez conduzido para os órgãos e tecidos onde tem efeitos benéficos no processo de cura.

Tipos de CH - Câmara hiperbárica

Todas as CH são dotadas de um sistema de intercomunicadores que se encontra sempre ligado do interior para o exterior e que permite também a comunicação entre o exterior e o interior.
Todos os equipamentos médicos utilizados dentro da CH terão que estar certificados para o efeito, uma vez que a pressão pode alterar o seu funcionamento. ex: ventiladores mecânicos, bombas ou seringas infusoras, etc.

No Reino Unido usam-se principalmente dois tipos de CH:
Monolugar - Um "tubo" acrílico transparente no qual o utente se encontra deitado para o tratamento. Toda a câmara se encontra sob pressão e toda a sua atmosfera saturada com O2 puro, razão pela qual não é necessária a utilização de máscaras. O operador da câmara encontra-se do lado de fora.

Multilugar - Estas câmaras, por norma, são de forma circular (apesar de existirem noutros formatos), têm uma porta de entrada, cadeiras no interior, requerem um operador no exterior e um assistente (técnico, enfermeiro ou médico) no interior juntamente com os utentes. Se a CH for suficientemente grande podem ser removidas as cadeiras para ser colocada uma maca. Toda a câmara se encontra sob pressão mas a sua atmosfera é constituída por ar e por isso os utentes respiram O2 por máscaras ou capuzes. Neste tipo de câmaras é permitido ao paciente ler durante o tratamento.

Staff

Todo o staff que trabalha na CH é especialmente treinado para o efeito. Para o funcionamento da CH (e vamos ter como exemplo uma multilugar) é necessário:
⇒ Utente.
⇒ Médico - é o responsável clínico em todo o processo de tratamento.
⇒ Assitente (Médico, Enfermeiro ou Técnico) - acompanha o utente dentro da CH durante o tratamento e está alerta para qualquer situação em que tenha que intervir, se o doente necessitar de estar ventilado ou necessitar de medicação endovenosa será, obrigatoriamente, um enfermeiro ou um médico a acompanhar. É responsável por todos os cuidados ao utente durante o tratamento.
⇒ Operador - é responsável por "conduzir" a CH, colocar as pressões e os tempos de tratamento e informar o assistente sempre que necessário.
⇒ Supervisor - é o responsável pela CH, desde a decisão dos tempos de tratamento e as pressões (juntamente com o médico) até todas as verificações e procedimentos de segurança.
O operador e o assistente podem executar ambas as funções.

    

Segurança

Como em todos os tratamentos ou intervenções hospitalares e pré hospitalares a segurança é o primeiro passo para que tudo corra bem! Por isso mesmo, num ambiente pressurizado há objetos que não são permitidos. Por essa razão ao utente é pedido que vista uma farda própria (por norma igual às fardas hospitalares, mas sem bolsos).
Todas as roupas dentro da CH devem ser 100% algodão, pois este tipo de material não produz electricidade estática e assim é reduzido o risco de aparecimento de incêndio. Não é permitido o uso de jóias ou relógios, assim como alguns outros objectos: telemóveis, isqueiros, jornais, maquilhagem, laca ou gel de cabelo, aparelhos auditivos, batons, etc.
De acordo com as normas de segurança, as CH multilugar estão equipadas com:

  câmaras de vigilância   aerossóis   adesivos
  botão de fogo   Intercomunicador   álcool
  sistema "chuveiro" anti-fogo   válvula de descompressão   extintores
  telefone (que funciona sem energia   monitorização dos níveis de O2  

 

Tipos de tratamento

Tratamentos eletivos - são normalmente curtos (cerca de duas horas), onde a nossa maior preocupação é observar o doente para qualquer anormalidade (ex: toxicidade de oxigénio, claustrofobia, etc.). Ensinamos e instruímos o utente a executar manobras de descompressão dos ouvidos e intervimos em qualquer situação que seja necessário.
Em termos de tratamentos eletivos, neste momento, a Oxigenoterapia Hiperbárica está indicada para:
► Osteoradionecrose;
► Radionecrose dos tecidos moles;
► Feridas diabéticas;
► Excertos de pele comprometidos;
► Osteomielite;
► Otite maligna externa;
► Isquemia dos tecidos moles;
► Lesões desportivas; Etc...

Tratamentos de emergência - dependem sempre do tipo de utente que estamos a falar. Se for um doente crítico é necessário que seja assistido por um enfermeiro ou médico com conhecimentos de cuidados intensivos, uma vez que é essencial prestar todos os cuidados que se prestam numa UCI – unidade de cuidados intensivos (com a diferença que estamos numa câmara pequena, sob pressão e com um barulho por vezes ensurdecedor). Se o doente for independente as nossas intervenções baseiam-se basicamente ao mesmo dos tratamentos eletivos.
para este tipo de tratamento, actualmente, a Oxigenoterapia Hiperbárica está indicada para:
► Doença Descompressiva (também conhecida por "mal dos mergulhadores");
► Intoxicação por monóxido de carbono;
► Aeroembolismos;
► Necrose dos tecidos moles (fasceíte necrosante, gangrena, etc).

Possíveis Efeitos Secundários

Como em todos os tratamentos existem efeitos secundários:
⇒ Lesões nos ouvidos, pulmões, dentes ou outras cavidades com "ar" (Barotrauma);
⇒ Toxicidade do Oxigénio (pulmões ou cérebro);
⇒ Claustrofobia.

 

Este texto baseia-se na minha experiência de trabalho numa câmara hiperbárica no Reino Unido, acima referida, sendo que poderá não se aplicar a outros países da mesma forma.
Gil Figueiredo
 

Links úteis
http://www.londonhyperbaric.com/
http://www.lhmhealthcare.com/wp-content/uploads/2014/05/Patient-Info-booklet-May-2014.pdf