O que dizer sobre mim e a minha experiência no Reino Unido? Todas as palavras do mundo serão insuficientes para descrever tal coisa, mas darei o meu melhor!
Foi em 2010 que recebi uma das maiores e maravilhosas notícias da minha vida – A entrada na faculdade em Medicina Nuclear em Lisboa. Mas em 2011 deparei-me pela primeira vez com a dura realidade do desemprego ao ver os meus colegas sem colocação. E foi aí que tomei a decisão de emigrar mal acabasse o curso.
Estava no meu 4º e último ano, em pleno estágio, quase a terminar e sem perspetivas futuras, quando passei da ideia à obra, sempre com a ajuda e suporte do meu namorado. Ainda não tinha acabado o curso quando decidi mandar o meu primeiro curriculum para a empresa portuguesa Vitae Professionals. Além de amáveis e prestáveis, mandaram-me um modelo para eu seguir e assim melhorar o meu CV e, posteriormente, encaminharam os meus dados para a empresa britânica Globe Locums, cediada em Londres. Foram dias de muita ansiedade até a aguardada entrevista telefónica, que se fez chegar 1 semana depois. E foi assim que eu descobri o que é trabalhar como Locum. E assim, sem nada garantido, decidi tentar e foi a melhor decisão da minha vida!
Entre toda a burocracia (análises sanguíneas, reforço de vacinas, passaporte, tradução de documentos, registo criminal, CBR) a tão esperada proposta chegou e em Setembro comecei a trabalhar como Locum em Portsmouth, Sul de Inglaterra, no Departamento de Física Médica (Medical Physics) no Queen Alexandra Hospital.
Nem tudo correu bem, especialmente no início. Rapidamente descobrimos que alugar um apartamento era impossível uma vez que nos pediam contratos de 6 ou 12 meses, e que um casal tem imensa dificuldade em alugar um quarto. Finalmente conseguimos um, mas por um valor elevado, que tivemos de aceitar à falta de soluções. Do mesmo modo, abrir uma conta bancária e pedir o “National Insurance Number” sem um comprovativo de morada revelou-se uma tarefa difícil, mas não impossível, e com ajuda de amigos que entretanto se conheceram, tudo se resolveu.

         

Apesar de diversos contratempos, estávamos felizes. Como era trabalho Locum recebia à semana, o que tornou tudo mais suportável, e sempre tive o apoio dos colegas de trabalho, imensamente compreensíveis mesmo que eu no início, muitas vezes, não conseguisse falar com eles (e achava eu que percebia inglês!)
O contrato, que era suposto ser de curta duração, prolongou-se por 7 maravilhosos meses que me deixam muita saudade. Conheci locais e pessoas maravilhosas e, acima de tudo, aprendi muito! Comecei por trabalhar numa área do meu curso que nem sequer damos muito relevo e a qual não praticamos nos estágios. Mas isso não impediu que não me dessem uma oportunidade de trabalhar e de aprender mais!
Durante estes 7 meses foram imensos os trainings que fiz – todo e qualquer software que utilizasse era-me exigido um treino específico. Qualquer tarefa que desempenhasse, tinha de ser supervisionada uma série de vezes para me assinarem como competente para realiza-la sozinha. Já perto do final do meu contrato, e sabendo o quão era importante para mim fazer o “cannulation training” para poder realizar administrações intra-venosas, deram-me a oportunidade de o fazer, mesmo sabendo que esse conhecimento já não seria utilizado para benefício deles. Não conseguem imaginar o quão bem acolhida fui e o quanto esta experiência foi compensadora.
Poucos dias antes de terminar o contrato uma nova proposta fez-se chegar, desta vez para Glasgow, Escócia. Não hesitei em aceitar mesmo sabendo que isso equivalia a uma reviravolta gigante na nossa vida, e assim, em Abril, comecei a trabalhar no Glasgow Royal Infirmary.
Novo país, novas pessoas, novo trabalho e desta vez tudo correu muito melhor, já eramos mais experientes nestas andanças! Utilizamos uma aplicação, Airbnb, alugamos um quarto para o primeiro mês e a procura por um local começou mal chegamos. O inglês, ao contrário do que eu temia, não me atraiçoou, mesmo com uma pronúncia diferente do que eu estava habituada, mas nem por sombras tão impercetível como tinha temido.
Mais uma vez, todas as tarefas foram supervisionadas e logo me deram autonomia no meu trabalho. E uma proposta para um posto efetivo fez-se chegar duas semanas depois – Já tinha mandando uma aplicação anteriormente, por coincidência, para o mesmo hospital.
Não poderia estar mais feliz! De momento trabalho entre dois hospitais, Glasgow Royal Infirmary e Stobhill Hospital (NHS Greater Glasgow and Clyde).

         

Estar na Escócia acabou por ser bastante compensador em diversos níveis. Em primeiro lugar porque estamos numa cidade grande mas não demasiado grande, o que nos permite acesso a tudo o que tínhamos em Portugal e que, infelizmente, não foi possível em Portsmouth (durante a semana tudo fechava pelas 17h/18h e ao Domingo pelas 16:30h). Por outro lado, já nos seria possível alugar uma casa mobilada com um contrato de 6 meses e por um preço bem mais aceitável (por sermos um casal tivemos que nos sujeitar a um quarto por 700£ em Portsmouth e agora temos um T2 por 550£). Mesmo os transportes, que funcionam até mais tarde e vão até mais sítios, o passe mensal torna-se mais acessível (60£ em Portsmouth e 46£ em Glasgow). E acreditem que nem se compara o tamanho das cidades! E, claro, não me posso esquecer de mencionar que achei ambas extremamente seguras.
Todas as pessoas são amáveis e todos os meus colegas gostam de nos mostrar os diversos locais que a Escócia tem para nos proporcionar e tenho a dizer, é um país lindíssimo! Sem contar com os inúmeros locais que se pode visitar só em Glasgow, desde os museus, aos edifícios antigos. Caminhar pelas ruas da cidade é sempre bastante agradável, em todos os cantos encontramos os mais diversos artistas de rua e todos muito talentosos. E claro está, os famosos kilts e gaitas de foles não nos desiludem.
Estou bastante realizada em termos profissionais e sinto que, apesar de ser licenciada à pouco tempo, as minhas opiniões são ouvidas, reconhecidas e que eles confiam e valorizam o meu trabalho. Tenho tido oportunidade de aumentar os meus conhecimentos através de formações, cursos na Universidade de Glasgow e, de momento, eles encontram-se empenhados em que eu consiga um registo no IPEM – semelhante ao HCPC mas como sou técnica de medicina nuclear, a minha inscrição não está contemplada aí.

Não me arrependo, nem por um segundo, da decisão que tomei. Como é óbvio as saudades apertam especialmente em alturas importantes – são os aniversários, as festas, são os meses de verão em que é suposto revermos os familiares que se encontram a trabalhar no estrangeiro… Sinto a falta da comidinha Portuguesa e do tempo quente de verão. Mas agora também sou uma emigrante, com tudo o que isso implica. Mas sou uma emigrante realizada! E acreditem, nunca vão ser um Português sozinho no Reino Unido - Onde quer que vão, Português é um língua que se ouve bastante, especialmente nos hospitais! E a probabilidade de terem colegas Portugueses também é elevadíssima.
Se penso em voltar? Penso sempre… Se irá acontecer? Gostava de acreditar que em 10 anos poderia voltar, com um trabalho estável e pronta para criar os meus filhos junto da família e do país que nos viu crescer. Mas, de momento, não acredito que algum dia consiga em Portugal a estabilidade que consegui aqui em menos de 1 ano e com apenas 22 anos de idade.
Felizmente, os tempos mudaram e as saudades conseguem-se matar com mimos no Skype e com viagens surpresa de apenas um fim-de-semana. Nem tudo é maravilhoso, é verdade, mas para todos aqueles que pensam em iniciar esta nova aventura, por experiência própria posso afirmar que vale a pena.

Daniela Teixeira

 

“Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; (…)
Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa” - Fernando Pessoa