Quando iniciei a licenciatura, ouvi atentamente todo um pomposo discurso acerca da mobilidade interna europeia que o Processo de Bolonha traria a nós, enfermeiros. Coincidência ou não, o fado português fez com que esta mobilidade perdesse o carácter vanguardista com que se intitulou e passasse a ser quase, para não dizer totalmente, obrigatória.

 

                  

 

Cheguei ao Reino Unido através de uma agência de recrutamento tendo todo o processo decorrido sem qualquer problema. No entanto, passados cinco meses, devido à velha vontade de viver em Londres e de trabalhar num hospital central, mais organizado e competitivo e com mais oportunidades de formação académica e desenvolvimento profissional, decidi fazer-me à vida e correr riscos, candidatando-me a um novo emprego.

Procurar emprego no NHS sozinha, requer a candidatura online a vagas apresentadas no site. O processo de seleção foi semelhante ao que fui submetida anteriormente, mas mais exigente e elaborado. No meu caso, este ocorreu na forma de um “assessment day”, dividido em três partes:
►  Teste de medicação: cálculos, incompatibilidades, principais reacções adversas, descoberta de erros de prescrição, parâmetros a monitorizar antes, durante e após a administração de medicamentos, sendo permitido a consulta do “British National Formulary”;
►  Dinâmica de grupo: discussão acerca da distribuição dos utentes por cama, tendo sido fornecidos, entre outros, dados como o diagnóstico de admissão e outras condições relevantes, sexo, hora de admissão e de previsão de alta;
►  Entrevista individual: júri constituído por três elementos em que as questões se focaram em avaliar conhecimentos a nível do controle da infeção, gestão de tempo e de prioridades nos cuidados, gestão de conflitos em equipa, definição de pontos fracos e fortes do meu perfil profissional e os motivos de candidatura a este cargo.

Contrariamente ao esperado, viver e trabalhar em Londres tornou-se economicamente vantajoso, devido ao incremento salarial associado. Este tem-me permitido poupar ainda mais, apesar do aumento da renda - única despesa em que constatei um aumento. Além disso, a maior realização profissional sentida veio compensar mais as perdas pessoais a que me sujeitei com a emigração e, de certa forma, fez-me considerar a possibilidade de alargar a minha estadia neste país e continuar a perseguir os meus objetivos profissionais. Assim sendo, aquilo que começou por ser uma decisão forçada, tem-se transformado numa grande oportunidade de, pela primeira vez, sentir que sou verdadeiramente valorizada pelo que faço, e que a evolução da minha carreira não é apenas uma preocupação minha. O próprio NHS preocupa-se e investe monetariamente nisso por mim.

Este investimento disponibiliza inúmeras oportunidades, daí que considero escusado que se permaneça num ambiente que não vá de encontro aos nossos objetivos. Obviamente que as transições podem ser acompanhadas de insucessos, mas aprender a ouvir a palavra não é importante para o crescimento profissional e para a reformulação de estratégias a adotar. No entanto, os nãos têm um grande inconveniente: apoderam-se de nós com grande facilidade, levando-nos à acomodação, e a acomodação por sua vez impede a adaptação e a mudança. E em última instância, tudo isto fará de nós maus profissionais de saúde.

Por isso, não se deixem vencer colegas!
Um grande abraço,
Sabrina Ferreira