Enfermeira com experiência profissional que deixou Portugal por um sonho.

Eu costumo dizer que a vida é demasiado curta para andarmos insatisfeitos e frustrados e foi inspirada por essa filosofia que me decidi a sair de Portugal e deixar os amigos, a família e um emprego estável para trás. Tudo isto porque desde que decidi que ia ser enfermeira que tinha escolhido a oncologia pediátrica como minha área de eleição. Como não consegui emprego no IPO – Instituto Português de Oncologia (porque em Portugal não temos muita escolha, basicamente vamos para onde nos aceitam) comecei a trabalhar no Hospital Pedro Hispano onde acabei por ficar durante 5 anos. Entretanto fui apostando na minha formação e fiz a especialidade em Pediatria (com estágios na pediatria do IPO) e uma Pós-Graduação em Cuidados Paliativos. Tudo para me dar o máximo de qualificações que me ajudassem a concorrer ao IPO. Nem imaginam quanto tempo andei a rondar este hospital a ver se conseguia vaga para a Pediatria. Ouvi muitas promessas vindas da chefe, da supervisora e até da diretora, na prática, nunca havia vagas!

Ao fim de 5 anos fartei-me e decidi que não ia esperar mais. E foi assim que decidi emigrar. Contactei a HCL que foi impecável na forma como me orientou em termos de dicas para entrevistas e inscrição no NMC - Nursing and Midwifery Council, no Reino Unido. Inscrevi-me como “adult nurse” no NMC e, graças à minha especialidade, consegui também registar-me como enfermeira de pediatria. Depois, contactei uma agência de recrutamento, em Portugal, que me conseguiu arranjar entrevista em Londres para a Pediatria no Royal Brompton, um hospital cardio-torácico de excelência. Apesar de todo o nervosismo inerente à entrevista e a algumas calinadas no inglês (sim, porque não é fácil tentar dar a volta quando o cérebro congela e não nos saem as palavras em inglês ou quando nos fazem perguntas e não percebemos nadinha do que nos disseram!) a entrevista acabou por correr bem e lá consegui emprego como “paediatric staff nurse”, banda 5 na Rose Ward (aqui as enfermarias têm nomes de pessoas ou locais).

 

                                      

 

Bem, o primeiro mês no Reino Unido foi surreal. Eu que até achava que percebia inglês, vi-me grega para perceber sotaques, expressões e termos técnicos, dentro e fora do hospital. Ter colegas indianos a falarem comigo a darem-me indicações e depois ter de comunicar com colegas escoceses ou do norte de Inglaterra, em pleno turno, é de desesperar. Mas depois de começar a entrar no ouvido tudo se torna mais fácil!
Como qualquer enfermeiro português que vem para cá trabalhar, também estranhei o facto de não me deixarem administrar nenhum tipo de drogas no início sem antes fazer os “drug calcutation tests”, assim como não me deixarem tirar sangue ou puncionar um doente. Mas depois de perceber a razão por detrás destas regras, que se aplicam a qualquer enfermeiro sempre que muda de emprego, ficou mais fácil de aceitar. Rapidamente comecei a entrar no ritmo da “busy Rose Ward” e a gozar um pouco das coisas novas que ia aprendendo.

Mas eu sabia o que me tinha levado a mudar de país e, ao fim de 6 meses de experiência no UK, candidatei-me, pelo NHS Jobs, para uma vaga de banda 5 “paediatric staff nurse” no Royal Marsden. Devo ter sido a candidata mais feliz na entrevista porque fui a única aceite para aquela vaga, no mesmo dia da entrevista a chefe ligou-me para me oferecer o emprego. Tive que passar novamente pelas referências, CRB, teste de cálculo de drogas, etc, mas foi mais fácil porque já sabia com o que contar. Sou extremamente realizada nesta unidade e adoro o que faço. Adoro os meus miúdos carequinhas, a relação que tenho com eles e com as famílias. Apesar de já ter explicado a toda a gente que sou portuguesa, não sei porquê as pessoas insistem que sou espanhola!
Todos respeitam os meus níveis de conhecimento e o facto de ser uma das únicas a tirar sangue por “venepuncture” e a puncionar no meu serviço. Já fiz o curso de Quimioterapia e Oncologia pago pelo meu hospital, e entretanto passei para a banda 6 do meu serviço.

 

Está a ser uma experiência muito positiva, se voltasse atrás no tempo faria tudo de novo. Claro que custa estar longe de tudo e todos mas penso em voltar para Portugal, talvez daqui a uns... 10 anos?
Até lá vou aproveitar o máximo que puder, vou fazer os cursos todos que conseguir e que não tenho lá para poder regressar e, quem sabe, poder implementar algumas mudanças na Enfermagem.

                                         Melhores cumprimentos,
                                         Sandra Marques
 

 

Pode encontrar aqui mais informacao sobre a unidade de pediatria oncológica onde trabalha a Sandra.